Se você é incapaz do imensurável prazer que é estilhaçar um copo na parede, seja por ser muito observado, educado ou tímido — não importa ―, basta seguir o seguinte protocolo:
Coloque um copo de vidro sobre a mesa — pode ser no café da manhã, em um almoço familiar, ou quando você estiver sozinho numa tarde de ócio.
Embace a cabeça e a vista.
Delicadamente, empurre o copo com os dedos — anular e médio — e quando o estômago comprimir e lhe faltar o ar , e só então, finalmente deixe que o copo estoure no chão.
Haverá um som e uma imagem. Não haverá resposta, nem nome, mas uma frase: “Um copo quebrado”.
Um copo quebrado... Já é alguma coisa. Para mim, o mundo.
E pra ficar bem chique ― e caso alguém venha correndo com uma pá — diga “não, não, deixe que eu mesmo varro” e faça questão de varrer, pelo segundo grande prazer de quebrar um copo: ver os caquinhos esbranquiçados caírem como uma fonte, um véu de noiva gigante, cascateando, imagine, da varanda até a rua, e o som de um bilhão de cristais, taças, taças de cristais e a cara das pessoas, tudo. Tudo, tudo, tudo, dentro da lixeira.
Quebrar um copo.
Eficiente, sem baixaria. Um jeito discreto de pirar de vez.
Eficiente, sem baixaria. Um jeito discreto de pirar de vez.
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