A necessidade humana de expressar, através da simbologia, as sensações, sentimentos ou outras questões abstratas leva a criação de símbolos. O coração, por exemplo, um órgão muscular oco que bombeia o sangue de forma que circule no corpo, ganhou outras representações e até uma imagem a ele associada, que pouco tem a ver com a figura real. Tido como centro da vida, do amor, dos sentimentos em geral tem nebulosa a origem da sua imagem universalmente conhecida. Alguns atribuem à folha de hera, símbolo do poder e da imortalidade, outros a forma do pêssego, cuja árvore era dedicada aos deuses egípcios. A mais antiga representação do coração, de que se tem conhecimento, data de 1200 a.C. Trata-se de um vaso da cultura Olmeca do México, provavelmente usado nos sacrifícios humanos desse povo. O vaso tem a forma grosseira do coração com os três vasos originando-se em sua base. Com o advento do cristianismo ganhou nova significação associado à figura do coração transpassado de Maria, do coração de Jesus e de tantos outros de santos e mártires adorados pelo mundo afora.
Figura pop o coração estampa camisetas, figura em cartazes, em letras de músicas e poesias de variados tipos. Sua imagem vende produtos, incita, provoca, insinua, divaga. É senha para os românticos, objeto de estudo para publicitários, semióticos, cardiologistas. O coração se torna depositário de todos nossos sonhos e amores, sofrendo quando a mágoa e a tristeza dele tomam conta, palpitando de ansiedade e angústia. Batendo forte na hora do medo, se apertando quando a perda aparece real, mas se enchendo de alegria quando o conforto e o carinho fazem dele morada.
São inúmeros os artistas que compuseram belas peças sobre o coração sempre repetidas e sempre bem vindas. “Meu coração não sei por que, bate feliz quando te vê.” letra inicial do Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro, associa a alegria que o coração sente quando do encontro com o ser amado, transformando-o quase num órgão autônomo. Da mesma forma Chico Buarque dá importância ao coração, transformando o restante do ser em peça secundária na bela letra “Me sinto pisando - Um chão de esmeraldas - Quando levo meu coração - À Mangueira.” Já à tristeza de um coração abandonado se expressa de forma magistral em Corsário, de Aldir Blanc e João Bosco, interpretação imortalizada por Elis Regina ”Meu coração tropical, esta coberto de neve...” Não precisa dizer mais nada.
Se de forma figurada o coração é o cofre dos sentimentos humanos, ele se torna depósito também do que escondemos, deixamos esquecidos, mas vivos e vibrantes continuam aprisionados em suas celas e como feras presas caminham de um lado a outro esperando a hora de se libertar. Também são sentimentos estes que escondemos e evitamos e habitam o mesmo espaço dos que exibimos e nos orgulhamos. O condomínio Coração é um lugar de convivência diversa entre primos sentimentos, tornando sua convivência nem sempre pacífica e na maioria das vezes produzindo uma incoerência que exige habilidade geminiana, em alto grau, para contorná-la.
Os anjos e demônios que vivem dentro de nós certamente escolheram o coração para fazer morada. De lá nos sopram idéias, nos indicam planos, cochicham falas, fazem semear sonhos querendo nos influenciar. Eles devem passar o tempo num imenso tabuleiro, entre nossas artérias, disputando qual dos dois estará no controle naquele dia, qual será a reação vencedora naquela hora, se será melhor uma resposta retumbante ou um silêncio emblemático. E nós cambaleantes neste mar revolto tentamos manter firme nosso barco do livre arbítrio. Aja coração.



Nenhum comentário:
Postar um comentário